sábado, 23 de outubro de 2010

Uma cozinha gelada - Ana Kita

   Ela falava as coisas mais sem sentido. Desenhava quadrados escuros em que gostaria de se abrigar. Estava sozinha, tão ou mais que qualquer outro. Já não havia o que dizer, nada mais deveria ser dito. Contudo, ela falava. Como quem não sabe - ou não quer - calar, como quem não tem nada mais a fazer. Ela comia. Deixava farelos cair sobre seu colo, sentia a gota de café escorrer por seu colo... E nada. Nada fazia para por ordem nem na sujeira, nem na cozinha. Não poderia arrumar as coisas ao seu redor se já não reconhecia seus limites. Poderiam julgá-la insana. Talvez. Faltava-lhe muito, realmente. Não sabia mais quem era, se um dia o soube. Não encontrava objetivos em sua vida. Não possuía qualquer sentimento que a levasse ao outro. Não fora presa ou liberta, fora rompida.

Ana Kita

8 comentários:

  1. O que o rompimento lhe significa?
    Beijos

    (tempo que não comento)

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  2. Posso ser didática? "O que o rompimento lhe parece?" hehe Como eu adoro dizer: há sempre várias interpretações! ;)

    Realmente senti sua falta escrevendo aqui! ;D
    Beijos!
    Ana

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  3. O que vejo ali? Um fantasma...
    :)

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  4. "Não fora presa ou liberta, fora rompida."

    Isso para mim justifica todo o resto. Fui lendo e acompanhando a desolação, o descuido consigo, da personagem... Era como se definhasse e eu imaginava: "em que momento vai resistir? em que momento vai superar".

    Mas há uma ruptura. E resguardadas as imagens das metáforas, eu creio que rupturas não se resolvem com band-aid. Ela agora tem meu respeito e eu sei que precisa de tempo.

    (nossa! eu entrei na viagem da personagem, viu? mas acho legal quando a gente se envolve assim com a leitura.)

    Ótimo domingo, Ana!

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  5. gostei bastante dessa narrativa. que nada apresenta sobre ela. ou quase nada. leitor, vire-se :)

    beijos.

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  6. Kawen, e quantos fantasmas não há? ;D

    Moni, adorei que tenha navegado tanto. Pena que a personagem não pode retribuir seu respeito, já que não possui "qualquer sentimento" que a leve ao outro. rs Eu agradeço por ela, e concordo que é muito legal se envolver assim (aliás, deixa o autor com um orgulho danado, hehe).
    Bom domingo pra ti também!

    Ítalo, obrigada! Penso que o leitor contemporâneo quer mais e pra isso precisa de menos. Dá pra entender? Acho que sim! :) Qualquer dúvida só questionar.

    Obrigada a todos! ;)
    Beijos!
    Ana

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  7. Eu só queria ter mais tempo pra vc e pras nossas conversas. Prometo voltar em breve.

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